Das marcas que ficam

Por Júlia Carvalho

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Crianças brincam no assentamento Bernardo Marím, Pureza (Foto: Júlia Carvalho)

“Eu estava com aquelas pessoas em uma realidade próxima da que eu cresci, da que eu vivi. Então, antes de experiência acadêmica, o Trilhas é uma experiência de vida”, revela Rita de Cássia, estudante de enfermagem, que pela segunda vez integrou a equipe de Pureza no projeto Trilhas Potiguares. Para a estudante, o programa é uma oportunidade de modificar seu ser profissional. “É muito gratificante ver que aquelas pessoas estão tendo, por suas mãos, uma oportunidade que você não teve ou que você um dia sonhou dar. Você sai um profissional diferente depois que passa pelo trilhas”, completa.

O relato é metonímia de uma série de memórias que vêm à tona no retorno para casa. Os sete dias imersos em uma realidade que oscila entre o desconhecido e o familiar geram transformações tão nítidas que beiram a satisfação. Guardadas as devidas proporções, o trilhas move de maneira equivalente o trilheiro e o município que o recebe.

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Crianças brincam no assentamento Bernardo Marím, Pureza (Foto: Júlia Carvalho)

“Saindo de um assentamento, o motorista do carro falou que uma mulher morava com sete crianças em uma casa humilde. Na hora, eu estava fazendo uma atividade supervisionada com as crianças, olhei para as caixas e não pensei outra coisa. Disse que doaria as escovas para eles. Eu me emociono quando eu falo porque quando a gente chegou lá, eu acho que se desse um soco naquela casa, cairia, de tão frágil que estava. E não só a casa, mas a estrutura familiar, pois o marido tinha acabado de ser morto. E quando eu vi aquelas crianças alí… meu Deus, isso foi o que mais me marcou. Eu dando aquelas escovas e os cremes dentais para eles”, relembra Franciara Gomes, estudante de odontologia.

Mesmo diante dos imprevistos, ao final, tudo ganha um sentido para além das entrelinhas: a obrigação acadêmica de difundir o cognitivo é mera consequência. O Trilhas é construção. Quebrar paradigmas. Ser útil até na inutilidade.

É transformar a saída da zona de conforto em vivências na comunidade. Transcender o cansaço e o ego e se tornar responsável por aquele momento, que mesmo efêmero, carrega um senso de responsabilidade social e humana.

“Algumas vezes nós estamos tão engessados na universidade que a gente não sabe para onde expandir. E quando você está em outra realidade é que você pode perceber que você não tem limites, que pode contribuir com as pessoas e que o mínimo que você acha que sabe, é o máximo na vida daquelas pessoas”.

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Crianças acompanham plantação de muda no assentamento Bernardo Marím. (Foto: Júlia Carvalho)

“Aqui na Universidade você não aprende para você. Você não aprende para os seus professores, você não aprende para os seus colegas… você aprende para as pessoas. Então o trilhas dá essa oportunidade de você colocar na prática seus conhecimentos e torná-lo humano”, finaliza.

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Um abraço ao final do trilhas

Por Manu Freitas

O último dia, 04, do Trilhas Potiguares Caiçara do Norte foi marcado pela emoção da despedida. Um ginásio cheio de pessoas e sonhos, iluminado pela arte de encenar, foi o palco de uma das mais belas apresentações que já vi. Olhares atentos uns aos outros. Não se havia, até então, existido um trabalho como esse no município. Que envolvesse tanta gente com o propósito de fazer arte. Então, aconteceu!

Eram 18h30 quando Dênis Nascimento, trilheiro e estudante de teatro, começou a pintar o rosto das crianças. Inquietas e ansiosas, era difícil contê-las em um só lugar. Aquele Ginásio não era só um espaço físico, agora fazia parte do imaginário de cada uma e se tornou o cenário ideal para representação de qualquer história. E foi assim que tudo começou…

26 crianças e adolescentes. 26 sonhos. 26 mentes repletas de inquietações e construções do mundo ideal. Há quem diga que esse tal mundo existe. Há quem veja o mundo e aceite-o como ele é: cheio de imperfeições. A temática do extrato cênico produzido por eles girou em torno das realidades com que se depara quem vive no município de Caiçara do Norte, distante 156km da capital potiguar e banhado pelo oceano atlântico.

Não há quem diga que o lugar que inspira calmaria e boas vibrações também traz relatos de violência e drogas. E foi sobre exatamente isso que a apresentação falou. Nas entrelinhas de cada gesto, eles também falaram de amor, de sonho e de carinho. E carinho não faltou naquele lugar ao final da apresentação. Conduzidos pelos ensinamentos do trilheiro Denis, os meninos e meninas deram um show de representação e passaram exatamente o que queria passar: emoção.

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Quem estava de fora pôde sentir todo envolvimento e entrega, além do carinho e gratidão externados, ao final da apresentação, em um abraço que foi difícil até para quem apenas assistia. Todos se sentiram parte daquele momento e as lágrimas caíram. Foi o fim de uma semana de preparação e desenvolvimento, mas não foi o fim dessa história. A semente plantada em cada coração será levada por muito tempo, assim como a árvore que a equipe do Trilhas Potiguares Caiçara do Norte deixou em um canteiro em frente ao mesmo ginásio.

PEREIROS, A ROSA DO SERTÃO DE PARAZINHO

Por Leandro Lima Ribeiro

A alegria e a euforia tomaram conta do pequeno distrito de Pereiros, zona rural de Parazinho, com a chegada da equipe do Trilhas Potiguares 2017. A pequena população pôde aproveitar oficinas de retalhos, dança, música e grafite. Ao término, todas as ações foram gratificadas com elogios e agradecimentos por parte da comunidade.

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Para Ana Elsa, coordenadora do Trilhas em Parazinho, a população de Pereiros veio para consagrar as ações do Trilhas. “É um momento mágico e enriquecedor para esse pequeno distrito que, junto com nossa equipe, desempenhou um belíssimo trabalho em todas demandas realizadas”, disse.

O distrito de Pereiros ganhou como legado um novo espaço de convivência para crianças e adolescentes, desenvolvido pelos trilheiros Beatriz Simões, estudante do curso de Arquitetura e Urbanismo, e Cícero Pinheiro, estudante do curso de Artes Visuais. O projeto foi desenvolvido de forma sustentável com a reutilização de pneus obsoletos e deteriorados. Ao todo, treze estudantes do Ensino Médio da Escola Municipal Alexandre Câmara ajudaram no desenvolvimento da ação.

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Além disso, a Escola Municipal Alexandre Câmara ganhou um novo espaço colorido e diversificado. A oficina de grafite, ministrada por Cícero Pinheiro, deu fruto a um lindo painel representando as torres das usinas eólicas de Pereiros. Segundo Cícero, o sorriso das crianças é o que move o seu coração para continuar seu trabalho como professor de Artes.

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Lições do trilhas: Em Bento Fernandes alunos da EJA partilham seus sonhos.

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No dia 03 de agosto, às 19h00, na Escola Municipal Maria do Carmo, na programação: “Roda de conversa: o retorno do cinema na praça.”  Enquanto me dirigia a sala de aula onde aconteceria a roda de conversa, uma funcionária falou: ” \ vou reunir todos os alunos, o horário da noite é difícil.” Não demorou muito e logo a sala se encheu, entre os alunos me chamou atenção duas personalidades, que diziam para os outros se orgulharem e preservarem a cultura e história local.

Romilda Oliveira, 24 anos de idade e José Gomes da Silva de 49 anos, possuem algo em comum, ambos estudam juntos, apesar da diferença de idades. Isso é possível pela Educação de Jovens e Adultos – EJA, onde eles estudam 6º e o 7º ano do ensino fundamental. Mas essa não é a única coisa que os une, os sonhos permanecem dentro deles.

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Romilda é mãe de Levi, 2 anos. Casou-se muito cedo, aos 18 anos, sentindo a necessidade de interromper os estudos. Mas infelizmente o marido Valmir sofreu um acidente fatal em 2016, deixando-a viúva. Ela voltou a morar com sua mãe, juntamente com seu filho e resolveu voltar para escola. Hoje ela alimenta os sonhos de ser engenheira civil e diz: ” – Quero uma boa qualidade de vida para minha mãe e meu filho, com meus estudos eu vou poder fazer isso.” Romilda em seu tempo livre faz curso de bombeiro civil e operador de caixa. Além disso, ela achou maravilhosa a ideia do retorno do cinema na praça, chegando a incentivar ideias locais de produção audiovisual.

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Enquanto Romilda sonha em ser engenheira civil, Sr. José Gomes da Silva sonha em fazer administração. Casado e pai de 3 filhos, insistiu na ideia de valorizar a cultura local. José tocava em um trio pé de serra e fez diversas composições. Tem orgulho de ser bento-fernandense, artista, pedreiro e agricultor. Sente vergonha do atual cenário político do país. José assim como todo brasileiro sonha com dias melhores, mesmo vendo a dificuldade que existe não perdeu a esperança.

Eu descobri que o segredo é esse, não desistir mesmo com olhares julgando pela idade ou pela dito “tempo perdido”, nunca é tarde demais e isso Romilda e Sr. José me ensinaram.

Oficina de saúde bucal para crianças em Jaçanã

POR TAIAN MARQUES

A cárie é uma doença infecto-contagiosa que pode provocar diversos danos a boca além de uma possível perda dos dentes se não for tratada a tempo. Isso se agrava mais ainda quando temos a cárie nos dentes de leite das crianças.

Roda de conversa sobre o modo correto de escovar os dentes. Foto: Taian Marques

Por isso a equipe do Trilhas Potiguares idealizou a oficina sobre higiene bucal com as crianças da Escola Municipal Oscar Cordeiro, em Jaçanã. Com objetivo de conscientizar e capacitar os pequenos sobre a importância da escovação.

Integrante da equipe do Trilhas Potiguares demostrando o método correto para escovação. Foto: Taian Marques

O aluno do curso de odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Pedro Henrique, iniciou a oficina explicando a importância do cuidado com os dentes e demostrou os métodos corretos de escovação, uso do fio dental, limpeza da língua e alimentação adequada. Depois da teoria, os jovens receberam escovas de dente e cremes dentais e na prática mostraram o que haviam aprendido. Roda de conversa, brincadeiras, aula prática e muita interação marcou a manhã da garotada.

Logo após a pratica da escovação os trilheiros realizaram diversas atividades lúdicas com objetivo de que as crianças através da apropriação do conhecimento fixem o que aprenderam na oficina e consigam de maneira autônoma realizar sua própria higiene. A tradicional brincadeira do telefone sem fio foi muito utilizada pelos participantes.

Brincadeira de telefone sem fio para ajudar as crianças a fixar o conhecimento adquirido. Foto: Taian Marques

“É um dever da universidade transmitirmos o conhecimento adquirido para as comunidade e as pessoas que muitas vezes não tem o acesso a este tipo de informação”, afirmou o estudante de odontologia, Pedro Henrique.

Trilheiros realizam 1° festival de Cores e Sabores em Jaçanã

POR TAIAN MARQUES

Show de talentos, comercialização dos produtos de associações e cooperativas da região, artesanato e muita animação marcaram a programação do evento.

Equipe do Trilhas Potiguares e os participantes do show de talentos. Foto: Taian Marques

Na sexta-feira, 4 de agosto, quem passou pela praça de eventos do município de Jaçanã, onde foi realizado o festival, pôde prestigiar os mais diversos talentos existentes na cidade. Grupos de dança, teatro, dublagem e música se apresentaram no show de talentos realizado pela equipe do trilhas potiguares.

Apresentação de grupo de dança no show de talentos. Foto: Taian Marques

Além disso, teve a exposição de tudo o que foi produzido nas atividades realizadas pelos trilheiros durante a semana. O grupo Unidos e Reciclando que faz parte da associação Chá da Bulandeira expôs para o público como são feitas as vassouras com garrafas PET.

O evento teve como objetivo revelar o potencial artístico, econômico e cultural dos moradores da região, além de ser uma semente para o desenvolvimento de mais um espaço de entretenimento e lazer para população da cidade. Uma oportunidade de valorizar o potencial artístico de cada um, despertando na população o sentimento de valorização das culturas populares.

Jovens do município de Jaçanã se apresentando no 1° Festival de Cores e Sabores da Cidade. Foto: Taian Marques

“O trilhas potiguares deixa um legado muito importante, pois movimenta nossa cidade e expõe outra forma de pensar, agregando valor para o nosso povo, nossa economia e nossa arte. Eles deixam através das suas oficinas, debates, palestras e dos eventos que realizam na cidade um legado para que as pessoas possam continuar com este trabalho”, declarou o prefeito de Jaçanã, Oton Mario.

Idosos utilizam computadores pela primeira vez na Oficina de Inclusão Digital em Viçosa-RN

Por: Allyne Paz

“Eu tenho vontade de continuar aprendendo, porque quanto mais dias a gente for vivendo, mais dias a gente vai aprendendo as coisas, né? A gente não pode aprender no tempo de novo, mas a gente agora vai aprendendo mais algumas coisas”, relata Gentil Francisco das Chagas, 77, agricultor desde da juventude. Após participar da Oficina de Inclusão Digital para Idosos, Seu Gentil com um sorriso no rosto afirma que a oficina o ajudou a entender melhor sobre o computador. Assim como agricultor, os demais idosos também nunca haviam manuseado computadores.

DSC_0039 (2)Oficina de Inclusão Digital para Idosos em Viçosa, a direita, temos o Seu Gentil. Foto: Ayrthon Medeiros

A oficina aconteceu às 8h, no Telecentro do Município de Viçosa- RN, local onde é destinado para inclusão digital no município. Para Silvano Carlos Lopes Junior, 25, trilheiro e estudante de Engenharia de Computação​, a Oficina tem o carácter humanitário, ​”m​uitas vezes o pessoal de exatas tem uma visão muito seca do mundo, falta um pouco de humanidade em certos pontos e talvez esse contato de tentar fazer a integração de alguma coisa que é mais voltado para a área tecnológica e algo que seja um trabalho mais social, seja importante principalmente para a formação do estudante. E eu acredito que o que tenha contribuído mais para a minha formação foi esse ponto humanitário do trabalho social​”, diz o estudante.​

DSC_0047Idosa manuseando pela primeira vez um computador. Foto: Ayrthon Medeiros

Sem dúvidas, a ida dos trilheiros nos municípios trouxe experiências enriquecedoras tanto na área acadêmica, quanto na pessoal. Os idosos participaram das demais atividades realizadas no município de Viçosa após esta oficina.