O alvo somos nós

Por Allyne Paz

O Trilhas Potiguares muda histórias, a começar pela nossa. Quando demostramos interesse em participar do projeto Trilhas Potiguares, e pessoas como eu, estudantes de comunicação, no Comtrilhas, logo pensamos sobre o quanto esse projeto vai fazer diferença na vida das pessoas que serão atendidas e beneficiadas nos municípios que estamos a caminho. Cada reunião de planejamento é para nossas atividades para essas pessoas, e por fim, focamos muito mais no outro, do que em nós mesmo,  e no meu ver,  essa é a primeira vantagem do trilhas.

Seguindo, após algumas reuniões, nos mais diversos locais, chega o dia tão esperado: o da viagem. O desejo de chegar lá batia no meu peito a cada peça de roupa que eu colocava na mala. Quando finalmente estávamos embarcando, a curiosidade, desejo e até mesmo o medo, tomavam de conta. Afinal, não fazíamos ideia do que estava por vir, e por mais planejamentos que a gente tivesse feito, tudo poderia mudar rapidamente.  Ao chegar ao município, fizemos o reconhecimento do local, conhecemos uns aos outros, mas agora, de forma menos formal e mais humana. Teríamos uma semana pela frente, e estávamos com sede de aprender. Estávamos com sede de ensinar, todos queriam começar a trabalhar imediatamente. Começamos a ajustar as atividades, reuniões das subequipes, planejamentos diversos e música, sempre. Nossa semana começou e terminou com música.

Em todos os cafés da manhã, almoços e jantas, conversávamos sobre como havíamos planejado as atividades e como elas haviam acontecido. Isso nos unia e aprendemos juntos. Eu acompanhei todas as equipes nas mais diversas atividades, infelizmente não consegui ir para todas as atividades, mas tive a oportunidade de ver cada equipe trabalhando. Todos voltavam com os brilhos nos olhos e cheios de ideias de novas coisas que poderiam fazer, e acho que foi esse o grande diferencial da equipe, a gente sempre queria fazer mais, e fizemos. Dia após dia, cada um estava aprendendo e ensinando, da forma mais humana e emocionante possível. Cada um estava cuidando do outro, brincando com o outro, rindo e abraçando. O afeto fez parte da nossa trajetória, e felizmente, ainda faz. Crescemos juntos. Melhoramos enquanto profissionais, e, de forma natural, melhoramos como pessoa. O alvo sempre fomos nós. A maioria dos trilheiros eram estudantes próximo da finalização do curso, e a ideia era essa: sair da universidade depois de ter vivido muitas experiências, mas agora, com uma experiência ímpar, o Trilhas Potiguares. E sair da graduação com a certeza que podemos fazer mais. Que podemos fazer acontecer. E como fazer acontecer.

Quando saímos de nossas casas para ir passar uma semana em Lagoa Salgada, a gente focou no outro, pensou no outro, viveu junto do outro. Mas o alvo sempre fomos nós. Eu acredito que quando a gente muda, o mundo muda com a gente. E quando transformamos o mundo, automaticamente, nos transformamos também. Eu tenho absoluta certeza que ocorreu impacto de nossas atividades desenvolvidas por onde passamos, e que deixamos sementes plantadas não apenas em solo, mas na mente e coração de muitos que passaram a semana acompanhando e vivenciando as atividades conosco.

O Trilhas Potiguares é viciante por essa sensação incrível de dever cumprido que SENTIMOS quando finalizamos. O Trilhas Potiguares muda histórias, a começar pela nossa. O alvo somos nós porque saímos da bolha na qual estamos inseridos e aprendemos mais sobre humanização e vida. O alvo somos nós. O alvo somos nós quando conhecemos pessoas que vimos apenas em reuniões anteriores próximo da viagem, e a conhecemos e passamos uma semana vivendo constantemente com elas. O alvo somos nós quando a gente aprende sobre empatia, sensibilidade e entende as limitações do outro. E não apenas entende, como também respeita. O alvo somos nós quando fazemos colegas de equipes se tornarem grandes amigos. O alvo sempre fomos nós. E é nos transformando que mudamos o mundo. E é mudando o mundo que nos transformamos. O Trilhas Potiguares muda histórias,  e sem dúvidas, começando pela nossa. 

Mel de Jandaíra: Bom, limpo e justo

Por Milka Moura

A Jandaíra é uma abelha sem ferrão típica da caatinga brasileira, o mesmo nome também batiza o município localizado a  120 km de Natal, que contém uma população de 6.942 habitantes. No Cabeço, comunidade do município existe há quase dez anos Associação dos Jovens Agroecologistas Amigos do Cabeço (Joca), que é responsável por boa parte da produção do mel de Jandaíra.

O pequeno povoado, era antes uma fazenda produtora de algodão, que depois de um tempo e de uma série de mudanças virou a sede do Joca. É lá, numa casa de varanda grande e traços antigos que os 18 jovens, todos filhos de agricultores, envolvidos no projeto se reúnem.

A associação iniciou-se na comunidade com um trabalho de conscientização e educação, para os meleiros da região. “Eles vendiam os enxames, pois acreditavam que traziam prejuízos. Começamos a fazer um trabalho para conscientizar que o principal a ser feito é a proteção das abelhas.” É o que conta Francisco Melo, 33 anos, tesoureiro da associação. Hoje, além da parte educacional o trabalho também consiste na preservação da espécie, com técnicas que auxiliam na produção do mel.

O processo é natural, as abelhas vão nas flores, coletam o néctar, retornam ao meliponário, e a dão início ao milagre da criação. A meliponicultura, criação artesanal de abelhas sem ferrão, é uma atividade ainda em crescimento. A luta por conhecimento da prática é crescente em todo o Brasil. Hoje o município sedia o polo da rota do mel no Brasil, de abelhas sem ferrão, que envolve mais onze municípios do estado. A produção anual do mel atualmente é de 3kg.

SLOW FOOD NO INTERIOR DO RN

O Joca é participante do movimento internacional “Slow Food” que trabalha com a proteção da sociobiodiversidade e de alimentos que correm risco de extinção. A organização leva o conceito bom, limpo e justo, que também é carregada pelos Jovens Agroecologistas, “Bom, pelo sabor, limpo por não carregarem nenhum agroquímico e justo pela relação que é dada por quem produz e por quem adquire o produto”, explica Francisco. “Se você consome nosso produto, na nossa ótica você não é consumidora, você é co-produtora. Porque você vai estar co-produzindo com um negócio que trabalha a fixação dos jovens no campo, trabalha a agroecologia, trabalha preservação das espécies nativas… Você não está apenas comprando um produto, está comprando a história.” Acrescenta.

O QUINTAL DE DONA JOANA

Por Milka Moura

Imagine um quintal, e uma senhora de cabelo branco. Agora triplique o tamanho desse quintal, e triplique o coração dessa senhora. Essa é Joana Pereira Vital, de 82 anos, nascida em São Bento do Norte, mas se mudou para Tubibal, uma comunidade do município de Jandaíra, e vive até hoje. Faz aniversário no mesmo dia que o Rei Roberto Carlos, diz isso sorrindo, quase que orgulhosa.

Ao chegar em sua residência  nos deparamos com uma casinha baixa, de uma janela antiga na frente que dava pra ver os cômodos da casa. Dona Joana nos recebeu, com um sorriso tão grande que parecia que nos conhecia a vida toda. Atrás da casinha de taipa, um quintal, tão grande que poderia muito bem ser chamado de sítio, “Você ainda não viu nada” disse.

Uma cerca de madeira, com uma portinha e flores cor de rosa em cima, marcava a entrada de um quintal que diz muito sobre a vida dessa senhora. Entramos. Boquiabertos, maravilhados e surpreendidos. Vocês também ficariam. A primeira vista não dava conta da imensidão de terra que tinha ali, era preciso andar, e andar mais um pouco, para chegar ao fim. Plantinhas pequenas, pés medianos, árvores grandes, verduras verdinhas em caixotes limpinhos, plantas medicinais, plantas “só para decoração”, plantação de feijão, plantação de algodão… “Você ainda não viu nada”.

Dona Joana não sabe ler, mas conhece o nome de todas as plantas, e suas funções também, não nega ajuda a quem vai pedir um cházinho. Seu quintal tem essa função meio milagrosa. Para ela também. É cuidando de suas plantinhas que esquece as dores da vida, mesmo que por um momento. “As vezes estou triste, desço, cuido das minhas plantas, choro um pouco…” Diz.

“Meu neto tinha 14 anos, era ele quem trabalhava comigo no roçado, ele ia pra escola perguntava: ‘Vó eu tô bonito’, ‘Tá meu filho, você é bonito demais.’ eu dizia. Um dia ele saiu pra brincar com os meninos, e chegou a notícia de que ele tinha morrido afogado. Ele era tudo na minha vida.” Conta emocionada. Naquele dia parte de Dona Joana também se foi. Depois disso não teve mais força para ir no roçado. Abandonou o pé de Jucá, para tentar deixar por lá a dor da perda do neto também. Mas por força do destino, ou da vida, ou do seu neto, nasceu um pé de Jucá bem no seu quintal. Milagrosamente, eu diria. “Deus mandou esse pé de Jucá, para eu não ir mais pra lá”. E mandou um dos mais bonitos e mais fortes. Assim como a dona.

Ali, cada pé, cada árvore, cada planta traz um pouquinho de suas dores e suas alegrias. Sua vida. E ao ser questionada sobre o que seu quintal representa, ela responde de imediato: “Tudo. Tudo de bom. Aqui é minha alegria, onde minha tristeza vai embora. Perdi marido, perdi filho, perdi neto, aqui é onde eu me abrigo.”

 

A realidade de ser “a professora”


‘Trilhas na Comunidade’ cria a Tv experimental Totoró

Por Mycleison Costa

A comunidade de Totoró, povoado distante 15 km de Currais Novos, acaba de ganhar seu primeiro meio de comunicação independente formado por jovens da comunidade. Durante as atividades do programa Trilhas Potiguares, foi criada a TV experimental Totoró, resultado das oficinas de Comunicação Experimental Multimídia oferecida pela equipe do Comtrilhas. O meio será responsável pela produção e divulgação de conteúdos sobre a localidade.

A metodologia de produção terá como base tecnológica a utilização dos dispositivos móveis digitais (Smartphones e Tablets) por jovens das comunidades, entre 11 e 26 anos. A equipe será coordenada pela participante mais experiente do grupo, Edilmara Vitor, que também é produtora de conteúdo.

A equipe da TV Totoró é formada por Edilmara Vitor, 26 anos, coordenadora e produtora; e os produtores de conteúdo Vitor Medeiros, 11 anos; Guipyson de Jesus, 14 anos; Jefferson Vitor, 13 anos; Allan Rodrigo, 16 anos e Ana Beatriz da Silva, 16 anos.

Os responsáveis pelas oficinas de comunicação foram o professor Itamar Nobre, e os estudantes de jornalismo Mycleison Costa e Priscila Lima, da UFRN. Segundo Itamar, “a ideia é que todos façam tudo e colaborem com as divulgações da região, se apropriando das tecnologias, fazendo uso útil por sua cidadania”.

A Tv Totoró pode ser acessada pelo Youtube e acompanhada nos perfis do Instagram e Facebook, todos com o user “TV Totoró”.

Sorriso também é resistência

Por Allyne Paz

Quem vê Francilene sorrindo, nem imagina o quanto ela luta diariamente e quanto sua história é inspiradora.

Mulher, mãe, dona de casa, dona de um mercadinho, estudante.

Essas são algumas das palavras que são usadas para tentar descrever uma mulher incrível que encontramos em Lagoa Salgada.

Francilene Serafim do Nascimento de Lima, 38, é conhecida em Salgada como “filha de Júlio Serafim”, como normalmente nos interiores do Rio Grande do Norte, é possível a identificação das pessoas. Mas, Francilene é além de apenas filha, ela também é uma super mãe e uma mulher com uma história incrível.  

Nascida e criada em Salgada, local onde também formou sua família, Francilene hoje é casada e tem três filhos, o Miguel, Luiz Eduardo e a sua filha mais velha, Maria Eduarda, com 15 anos. A grande mãe passou 16 anos longe da sala de aula, e hoje ela é um exemplo não apenas para seus filhos, como também, para todos os que convivem com ela. Atualmente ela estuda no período noturno, na Escola Estadual Edmundo Neves, em Lagoa Salgada, ela está finalizando o ensino médio e reforça sempre a importância de estudar: “o futuro da gente é estudo”, afirma com os brilhos no olhos.

Muito sorridente, a jovem sempre leva tudo com bastante calma e alegria. Francilene é uma mulher de garra, de fé e tem muitas histórias boas para contar. Ela ensina sobre vida, superação e como levar a vida de uma forma mais tranquila em poucos minutos de convivência. Ela já inspirou crianças, jovens e adultos com sua linda história. E sem dúvidas, ainda vai inspirar muitos por aí.

IPÊS, SEMENTES E TRILHAS

Por Sthefanny Ariane

No pequeno município com cerca de 6.000 habitantes, um ipê chama a atenção. Não que seja exuberante, é apenas um singelo ipê da praça central de Lagoa d’Anta. Mas que na sua simplicidade e das poucas flores roxas que lhe restam, tornou-se atrativo aos olhares sensíveis de quem passa. Todas as manhãs e fins da tarde é possível observar lagoandantesses sentados no banco da praça próximo a árvore para conversar, brincar ou apenas observar a vida passando e o movimento da cidadezinha.

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O que talvez tenha passado despercebido pelos frequentadores da praça, são as sementes. Não as sementes deixadas por ipês, árvores ou populares da região, mas por trilheiros que estiveram em Lagoa d’Anta, na última visita ao município em 2014. E realizaram ações, oficinas e talvez, até mudaram a vida de alguns moradores, compartilhando conhecimentos e experiências, deixando a idéia de que existem possibilidades e que é possível melhorar a realidade – E para marcar a passagem do trilhas naquele ano, plantaram uma semente que floresceu em um canteiro próximo a praça. Qual espécie de planta? Ninguém soube dizer. Porém, assim como a esperança, cresce como um símbolo da passagem do projeto no município.

E nesta edição não poderia ser diferente, após quatro anos de espera, o Trilhas esteve novamente em Lagoa d’Anta. Trouxe novidades, conhecimento, esportes, pintura, dança e música. Durante uma semana transformou a rotina da pequena cidade, onde quase todos os prédios, escolas e secretarias ficam localizadas numa mesma rua.

Os trilheiros cantaram, dançaram e colocaram cor nas paredes… Inspiraram a idéia de união, respeito e possibilidades de melhorar aquilo que já existe de bom no município e ampliar a visão para coisas além dele. E como marca da presença do projeto em Lagoa d’Anta neste ano de 2018. Plantaram no dia 27, uma muda de ipê na escola Felipe André – um trabalho em equipe, realizado junto aos professores e alunos da escola. Deixando para eles, o responsabilidade de cuidar e fazer crescer assim como as ideias deixadas pelos trilheiros.

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